Naviraí (MS) – Uma organização criminosa que utilizava o ambiente virtual para coagir crianças e adolescentes a práticas de automutilação, crueldade animal e suicídio foi o alvo da Operação Lívia, cujos resultados foram apresentados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) nesta terça-feira (4). A ofensiva, conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com suporte técnico do Ciberlab da Senasp/MJSP, cumpriu oito mandados de busca e apreensão em quatro estados além do Mato Grosso do Sul: Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.
O epicentro da investigação remonta ao dia 22 de julho, quando uma adolescente de 13 anos, chamada Lívia, tirou a própria vida em Naviraí, a 365 km de Campo Grande. O ato foi transmitido ao vivo por quase 45 minutos em um grupo do Discord. Antes do desfecho trágico, os criminosos tentaram, sem sucesso, forçar a vítima a matar um gato durante a transmissão. A frieza do grupo ia além da coação psicológica: os investigados chegaram a criar uma chave Pix em nome da adolescente, sem o conhecimento de sua família, para financiar a compra de lâminas destinadas à automutilação.
Em coletiva realizada em Brasília, o ministro Wellington César Lima e Silva enfatizou que a realidade atual exige uma postura mais atenta de pais e da sociedade como um todo. O combate a essa modalidade de crime exige, na visão da pasta, uma vigilância ativa sobre o conteúdo consumido por menores nos dispositivos conectados.
O foco da investigação agora se volta para a responsabilidade das plataformas envolvidas. Victor Fernandes, secretário Nacional de Direitos Digitais, apontou o descumprimento de normas fundamentais, como o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), o Marco Civil da Internet (atualizado pelo Decreto 2.975/2026) e o Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital (nº 12.976/2026). Segundo o secretário, tanto o Discord quanto o Telegram falharam em obrigações legais básicas.
No caso específico do Discord, houve falha ao não interromper a transmissão ao vivo, não remover o material de imediato e não alertar as autoridades. Além disso, a plataforma é questionada pela ausência de mecanismos eficazes de verificação de idade. Menores transitavam livremente por grupos onde ocorriam transmissões de automutilação e induzimento ao suicídio sem qualquer barreira de acesso. Diante desse cenário, o Ministério da Justiça encaminhará um pedido de investigação contra as plataformas à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
O trabalho policial, entretanto, permitiu avanços concretos para além do caso de Naviraí. O delegado Alessandro Barreto, representante do Ciberlab, confirmou que a equipe conseguiu identificar outra vítima do mesmo grupo em outro estado, impedindo que ela consumasse o suicídio em uma live que já estava agendada. A prioridade das autoridades agora é mapear outros nomes e notificar famílias, na tentativa de estancar uma rede que encontrou, na vulnerabilidade do ambiente digital, espaço para atuar com crueldade extrema contra jovens brasileiros.











































































































