Vitória (ES) – O cenário das estradas e ruas brasileiras apresentou uma mudança nítida entre 2010 e 2024. O volume de óbitos em acidentes de trânsito ligados ao consumo de álcool teve uma queda de 19,5%, saindo de 15 mil mortes anuais para 13.075 ao final desse período. A marca, celebrada no Dia Nacional da Lei Seca, esconde, no entanto, um sinal de alerta que acendeu logo após a pandemia.
Após anos de declínio consistente, os números voltaram a subir. Em 2020, o índice havia atingido 11.600 vítimas, mas a trajetória de queda foi interrompida nos anos seguintes. A percepção de quem monitora o setor é que a legislação, embora reconhecida mundialmente pela eficácia em reduzir acidentes, enfrenta novos gargalos operacionais e culturais.
A sofisticada tecnologia disponível para os motoristas tornou-se um obstáculo para a fiscalização. O uso de aplicativos de mensagens para alertar sobre a localização de bloqueios policiais permite que condutores que ingeriram álcool escolham rotas alternativas, burlando os postos de controle. O sentimento de impunidade, que ainda permeia parte da sociedade, enfraquece o impacto inibidor da lei.
O perfil de quem perde a vida nessas circunstâncias permanece claro e exige foco: homens jovens lideram as estatísticas. Entre o público masculino, o álcool figura como fator determinante em 36,6% das ocorrências de trânsito, enquanto entre as mulheres o índice é de 26,3%. Além disso, o aumento da frota de motocicletas nas vias brasileiras tem contribuído para o agravamento dos dados.
Para reverter a tendência de alta observada desde 2020, campanhas baseadas apenas no impacto visual ou no medo perderam a eficácia a longo prazo. Especialistas defendem uma abordagem que combine a certeza da punição com a oferta de alternativas concretas, como o fortalecimento do transporte público noturno e o uso ampliado de serviços de carona por aplicativo, especialmente durante as madrugadas de fins de semana, quando o maior volume de infrações é registrado.
A disparidade regional também desafia o poder público. Tocantins, Piauí e Mato Grosso figuram com taxas de mortalidade por 100 mil habitantes bem acima da média nacional de 6,2. Em cenários assim, a precariedade das rodovias, o distanciamento de pontos de socorro médico e a menor densidade de patrulhamento formam uma combinação fatal. O desafio agora é adaptar as estratégias de prevenção e vigilância a essas realidades locais, abandonando soluções genéricas que já não dão conta da complexidade do trânsito atual.









































































































