Rio de Janeiro (RJ) – De um lado, uma disputa nos tribunais que exige a devolução de quase um milhão de reais em verbas federais. De outro, o trabalho obstinado e gratuito de um aposentado apaixonado por jornalismo. É este último esforço que agora permite ao público resgatar um capítulo quase esquecido da imprensa alternativa brasileira: as edições paulista e gaúcha do lendário tabloide O Pasquim.
Lançadas em 1986 — época de inflação galopante com o Plano Cruzado, despedida do Fusca e apreensão global com o desastre de Chernobyl —, as versões regionais de São Paulo e do Rio Grande do Sul ganharam vida nova no acervo da Biblioteca Nacional Digital. Ao todo, 114 números históricos foram digitalizados e disponibilizados, somando-se às 1.072 edições cariocas que já faziam parte da plataforma.
Humor ácido com sotaque local
Quando o projeto de expansão ganhou as ruas, o semanário já não ostentava o fôlego comercial dos tempos da ditadura. Mesmo assim, a mística da publicação atraiu profissionais dispostos a correr riscos. Em São Paulo, o jornalista Paulo Markun assumiu o desafio ao lado de Manoel Canabarro e Dante Matiussi. Já em Porto Alegre, a iniciativa partiu de Flávio Braga, que viajou de ônibus ao Rio para convencer o cartunista Jaguar, diretor do jornal, a autorizar a sucursal.
A proposta era nacionalizar o deboche. No Rio Grande do Sul, a redação local cutucou o orgulho tradicionalista ao ironizar o “macho sulino”, gerando debates intensos. O time contava com nomes como Edgard Vasquez, Santiago, Bier, Canini e o jornalista Reverbel. Em terras paulistas, o foco mirou a transição política e os costumes urbanos. Cartunistas e intelectuais como Laerte, Jô Soares, Augusto Nunes e Gabriel Priolli rechearam as páginas. Alberto Dines e Fernando Morais chegaram a travar um bate-boca público no impresso por defenderem candidatos rivais ao governo estadual. A oposição a Paulo Maluf era o único consenso entre a equipe, que se dividia no apoio a Eduardo Suplicy, Orestes Quércia e Antônio Ermínio de Moraes.
O fantasma das contas no vermelho
Apesar do brilho criativo, ambas as sucursais duraram pouco mais de um ano. Faltou sustentação financeira. Se no Sul a Varig figurava entre os poucos anunciantes de peso, em São Paulo as marcas temiam associar seus nomes a uma publicação considerada excessivamente irreverente. Na ditadura, O Pasquim sustentava-se com impressionantes 200 mil exemplares vendidos em bancas; na redemocratização, a imprensa tradicional passou a cobrir os temas antes censurados, espremendo o espaço do semanário.
A polêmica da lei e o trabalho de formiguinha
O resgate digital das páginas ocorre em meio a embates jurídicos. Recentemente, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região manteve a condenação que obriga uma produtora a devolver R$ 812 mil captados via Lei Rouanet. O projeto, que teve aprovação do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras, foi reprovado pela falta de comprovação de que o acervo seria liberado de graça na internet.
O acervo que hoje está no ar nasceu do esforço voluntário de Fernando Coelho dos Santos. Corretor de seguros aposentado, ele organizou uma exposição do cinquentenário do jornal no SESC em 2019 e, desde 2016, trabalha sem cobrar nada na digitalização dos arquivos. Fernando localizou quase todas as relíquias regionais, deixando de fora apenas duas edições perdidas no tempo. O resultado desse resgate histórico pode ser consultado gratuitamente no endereço eletrônico https://bndigital.bn.gov.br/dossies/o-pasquim/.



























































































