Rio de Janeiro (RJ) – Em 2015, as ruas que cercavam a Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Ary Parreiras, na zona sul de São Paulo, eram marcadas pelo acúmulo de lixo e pela vulnerabilidade social. Foi nesse cenário, cercado por quatro grandes comunidades, que a professora Débora Garofalo decidiu trocar as aulas de língua portuguesa pela cadeira de tecnologia. O que parecia um desafio improvável transformou-se em uma revolução pedagógica: usar a sucata espalhada pelo bairro para ensinar robótica e programação a crianças da periferia.
Dez anos depois, essa iniciativa colhe frutos que ultrapassam fronteiras. Débora acaba de receber em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, o prêmio inédito de Global Teacher Influencer of the Year, oferecido pelos organizadores do Global Teacher Prize — premiação na qual ela já havia sido finalista histórica em 2019. O reconhecimento coroa uma trajetória de impacto público que também lhe rendeu, recentemente, o Prêmio Faz Diferença na categoria Educação, entregue em cerimônia na Casa Firjan, no Rio de Janeiro.
Os resultados práticos nas salas de aula justificam o destaque internacional. Sob a liderança da educadora, a escola registrou uma queda de 93% na evasão escolar e de 95% no trabalho infantil, além de retirar mais de uma tonelada de resíduos das ruas do entorno. O desempenho pedagógico acompanhou a transformação social, com a nota do Ideb do colégio saltando de 4,2 para 5,2 em apenas três anos e meio.
A expansão como política de Estado
O sucesso local chamou a atenção da gestão pública. Débora levou o método para a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, escalando o aprendizado criativo para 5,4 mil escolas e 3,7 milhões de alunos. A iniciativa deu origem aos Centros de Inovação da Educação Básica Paulista e à Expo Movimento Inova. Mais tarde, no Rio de Janeiro, ela ajudou a estruturar os Ginásios Educacionais Tecnológicos, os chamados GETs, expandindo o modelo para 300 unidades de ensino.
Para a professora, a verdadeira tecnologia na educação não tem relação direta com a distribuição massiva de telas eletrônicas. Ela aponta que iniciativas baseadas na entrega de tablets, embora importantes em termos de infraestrutura, perdem o sentido sem uma intencionalidade pedagógica clara. A tecnologia eficiente, argumenta ela, é aquela que ensina o estudante a pensar criticamente e a resolver problemas reais de sua comunidade.
O erro como parte do aprendizado
Diante do debate contemporâneo sobre o uso de celulares nas escolas, a educadora defende uma abordagem mais profunda do que a simples proibição dos aparelhos. O caminho ideal envolve a formação de professores para a educação midiática, preparando os jovens para as dinâmicas digitais de maneira ética e responsável. Para Débora, o aprendizado precisa ser ativo e humanizado, dando espaço para que os alunos errem, testem e colaborem.
Toda essa experiência prática virou metodologia compartilhada. Autora de uma coleção de livros sobre robótica com sucata publicada pela editora Moderna, Débora se prepara para lançar o terceiro volume da série no segundo semestre deste ano. O objetivo é continuar democratizando o acesso à ciência prática, mostrando que o ato de desmontar um brinquedo velho para construir um novo robô é, em essência, o início de uma transformação social.



























































































