Rio de Janeiro (RJ) – Neste sábado (15), o Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ) marca um capítulo expressivo em sua trajetória de reabilitação psicossocial. O lançamento de O Quinto dos Infernos, quinto álbum do grupo musical Harmonia Enlouquece, celebra duas décadas e meia de uma iniciativa que transformou o fazer artístico em pilar terapêutico dentro do SUS. A unidade, vinculada à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ), consolidou-se como referência nacional ao colocar a escuta e o protagonismo dos internos no centro do tratamento clínico.
A gênese do projeto remonta a 7 de abril de 2001, Dia Mundial da Saúde. Desde então, o grupo já registrou 65 composições, consolidando uma identidade artística peculiar. O núcleo criativo da banda gira em torno de Hamilton de Jesus Assunção, paciente da instituição desde 1998. Sua produção é vasta: ele é o autor de quase a totalidade das faixas gravadas, além de ser o principal intérprete. O diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão, que também integra a banda no violão, destaca que a viabilidade do repertório depende inteiramente desse fluxo criativo ininterrupto de Assunção.
A estrutura do coletivo é híbrida. Ao longo de 25 anos, mais de 75 pessoas passaram pela formação, que atualmente reúne 13 componentes — sendo nove em acompanhamento psiquiátrico e quatro colaboradores. O reconhecimento pelo trabalho chegou recentemente com o Prêmio Asas, concedido via Lei Aldir Blanc. Para o compositor, o impacto da música transcende a técnica ou o palco, funcionando como um suporte vital para a manutenção do bem-estar emocional em momentos de crise.
O percurso de Hamilton na rede pública de saúde começou em 1984, no antigo PAM Venezuela. Ao transitar para o CPRJ, o paciente encontrou nas oficinas de arte uma ocupação contínua. Esse modelo de gestão cultural, que inclui desde 2016 o Ponto de Cultura do Centro Psiquiátrico, estimula a troca com outras instituições, como o Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub) e o Instituto Municipal Philippe Pinel. A expectativa da direção é expandir o alcance desse trabalho, com a estruturação de uma rádio interna que, futuramente, ganhará formato digital e podcasts para levar as produções do grupo para além dos muros da unidade.
A celebração oficial ocorre no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MuhCab). Além do show, a programação inclui uma exposição fotográfica e histórica que revisita o período entre 2001 e 2026. O evento reserva ainda a estreia do documentário Harmonia Enlouquece – Um mergulho musical pela saúde mental, dirigido por Flávia Lima, e uma roda de conversa focada nas interfaces entre arte, inclusão e políticas de saúde pública.
Para o cotidiano do CPRJ, o álbum é o resultado direto de uma rotina que prioriza a expressão individual. Com 13 novas faixas, sendo 11 de autoria de Assunção, o lançamento reafirma a longevidade de um projeto que, muito além das métricas hospitalares, encontrou na sonoridade uma forma definitiva de cuidado.



































































































