Porto Alegre (RS) – Uma nova frente de combate ao acidente vascular cerebral (AVC) ganha corpo no Brasil. Desde o final de 2025, pesquisadores trabalham na expansão de um estudo clínico que avalia a eficácia de uma polipílula nacional, projetada para prevenir eventos cardiovasculares graves. A meta é audaciosa: reunir 8,5 mil voluntários para um acompanhamento que deve durar entre três e quatro anos.
O composto, desenvolvido por um comitê nacional em parceria com especialistas da Austrália, Estados Unidos e Inglaterra, agrupa três princípios ativos em uma única dose: rosuvastatina (10 mg), indicada para o controle do colesterol, além de valsartana (80 mg) e anlodipina (5 mg), ambos voltados ao manejo da hipertensão. A ideia central é simplificar o tratamento e elevar a adesão dos pacientes.
A coordenação do projeto está a cargo da neurologista Sheila Martins, chefe do serviço de neurologia do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Ela explica que o foco do estudo está em indivíduos de baixo e médio risco, faixa que concentra cerca de 85% dos casos de AVC globalmente. Entre 2020 e 2023, um grupo de 370 pessoas participou da fase piloto, que confirmou a boa tolerabilidade da medicação e sua capacidade de reduzir, em média, 12 mmHg na pressão sistólica e 40 mg/dl nos níveis de colesterol.
Para o estudo atual, o perfil do voluntário é específico: pessoas entre 50 e 75 anos que ainda não sofreram infarto ou AVC e que não utilizam medicamentos para hipertensão, diabetes ou colesterol. Os participantes serão sorteados para receber a polipílula ou um placebo. O trabalho está sendo conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento em colaboração com o Ministério da Saúde, por meio do Proadi-SUS, e se estende por 14 centros de pesquisa em estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Acre e no Distrito Federal.
Além da medicação, os envolvidos têm à disposição o aplicativo Riscômetro. A ferramenta digital não apenas calcula o risco cardiovascular individual, mas também auxilia o paciente no monitoramento de metas de saúde, incentivando a prática de exercícios físicos e a interrupção do tabagismo. Conforme observado na fase inicial, esse suporte tecnológico foi determinante para que muitos voluntários adotassem hábitos mais saudáveis.
A urgência da iniciativa reflete os dados preocupantes sobre a doença. O AVC permanece como a principal causa de morte no Brasil, com quase 90 mil óbitos registrados no ano anterior, segundo dados do Registro Civil. Projeções da Organização Mundial do AVC sugerem que as mortes por essa causa podem subir 50% até 2050. Contudo, especialistas garantem que o cenário é mutável, já que 90% dos episódios seriam evitáveis caso os fatores de risco, especialmente a pressão arterial elevada, fossem controlados a tempo.
Ao consolidar esses dados, o projeto espera influenciar futuras políticas públicas de saúde e viabilizar a oferta do medicamento pelo SUS. O objetivo final é transformar a prevenção primária, oferecendo uma solução prática e de baixo risco para a população brasileira.



































































































