Havana, Cuba – As mudanças estruturais discutidas na Assembleia Nacional cubana, na última quinta-feira (18), não indicam uma guinada em direção ao livre mercado. Pelo contrário: analistas interpretam o pacote como uma tentativa de sobrevivência frente ao cerco imposto pelos Estados Unidos. O plano inclui mais de 20 medidas para flexibilizar investimentos estrangeiros e descentralizar a gestão estatal, mas, no contexto insular, o objetivo passa longe de um processo de liberalização econômica tradicional.
A lógica de Maicon Cláudio da Silva, professor de economia da UFRRJ, é clara: o próprio sistema de sanções dos EUA impede a formação de uma classe empresarial interna. Sem acesso livre ao fluxo de capitais e com o controle financeiro global nas mãos de Washington, a acumulação de riqueza capaz de sustentar uma burguesia nacional torna-se impraticável. Ao contrário do que ocorreu com a China nos anos 1980 — onde o capital norte-americano encontrou terreno fértil para se expandir —, Cuba permanece isolada e sob vigilância constante das agências reguladoras dos EUA.
O bloqueio, que se arrasta por quase sete décadas, funciona como uma engrenagem que penaliza empresas de terceiros países que ousem negociar com Havana. Gigantes dos cartões de crédito, como Visa e Mastercard, além de grandes redes hoteleiras espanholas, como Meliá e Iberostar, recuaram de suas atividades na ilha para não sofrerem retaliações em solo americano. Até o setor de serviços médicos, um dos pilares de divisas do país, tem sido alvo de pressões diplomáticas contínuas da Casa Branca sobre nações parceiras.
Desde o final de 2025, o aperto se tornou mais severo, especialmente no fornecimento de energia. Após restringir o transporte de petróleo vindo da Venezuela, Washington conseguiu desestabilizar o cotidiano cubano. O resultado visível nas ruas de Havana é o colapso dos serviços básicos: apagões constantes, inflação de itens essenciais e uma crise severa no transporte público que afeta diretamente os quase 11 milhões de habitantes.
Diante desse cenário, a nova agenda oficial busca ampliar a autonomia de estatais e reformular a política cambial e fiscal. A promessa oficial é descentralizar o poder para os municípios, mantendo a retórica da justiça social. Contudo, para quem vive na ilha, a realidade é outra. Moradores descrevem o cenário atual como o período mais difícil da história recente. O desafio do governo cubano, agora, é equilibrar essa reestruturação administrativa com a escassez aguda de recursos, tentando manter a estabilidade em um momento em que as fontes tradicionais de receita — o turismo e a exportação de mão de obra especializada — estão severamente comprometidas pelas sanções internacionais.








































































































