Brasília (DF) – O rastro de uma rede criminosa que inundava o mercado nacional com hormônios adulterados levou a Polícia Civil do Distrito Federal a deflagrar, na quarta-feira (12), uma ofensiva de proporções interestaduais. A chamada Operação Narciso se espalhou pelo Distrito Federal e outros oito estados, atingindo em cheio um esquema que mesclava produção caseira com uma engrenagem financeira complexa para lavar o lucro da falsificação.
Os números da operação dão a dimensão do alcance do grupo: 43 mandados de prisão e 64 ordens de busca e apreensão foram expedidos. Até o momento, 30 pessoas foram detidas, entre elas sete indivíduos que estavam foragidos no Paraguai. O grupo era formado por um círculo variado de profissionais, incluindo empresários, influenciadores digitais, nutricionistas, biomédicos, veterinários e farmacêuticos — todos suspeitos de integrar a cadeia de comando ou distribuição.
A estrutura de fabricação era precária e perigosa. Substâncias hormonais, estimulantes e diuréticos eram manipulados em residências e depósitos sem qualquer controle sanitário ou garantia de pureza. De acordo com as investigações, os insumos vinham clandestinamente do Paraguai para serem processados em laboratórios improvisados no Brasil. O impacto é alarmante: estima-se que 80% do mercado de anabolizantes consumido no país hoje seja composto por mercadorias falsificadas, o que explica a margem de lucro exorbitante dos criminosos.
Para mascarar a origem do dinheiro, a organização recorria a um arsenal de métodos: uso de empresas de fachada, contas de passagem e até sites de apostas para converter e movimentar os valores, que somam R$ 32 milhões bloqueados judicialmente. A vida de luxo dos envolvidos era sustentada por essa engrenagem. Em Brasília e outras capitais, os alvos ostentavam patrimônio em bairros nobres e circulavam em veículos de alto padrão, muitos dos quais acabaram apreendidos pela polícia.
Durante a execução dos mandados, os agentes confiscaram 25 carros importados, joias, relógios de luxo e uma vasta gama de evidências, como documentos e celulares. A operação também atingiu a infraestrutura do grupo: 13 estabelecimentos, entre gráficas, academias e farmácias de manipulação, foram interditados. Além disso, 22 perfis utilizados para a venda e promoção das substâncias em redes sociais foram bloqueados.
O foco da Polícia Civil agora se volta para a desarticulação completa das redes de logística que permitiam a circulação desses produtos. Com o sequestro de bens e a interdição de locais de fachada, a estratégia visa não apenas a punição dos responsáveis, mas a interrupção definitiva da cadeia produtiva que, por trás da fachada de cuidados com o corpo, escondia substâncias manipuladas em condições de extrema insalubridade.



































































































