Brasília (DF) – A falta de transporte público acessível e eficiente na periferia de Brasília está impedindo, rotineiramente, que pacientes de baixa renda tenham acesso a tratamentos de saúde cruciais, aponta um estudo da Universidade de Brasília (UnB). O levantamento revela que as tarifas elevadas e a precariedade das linhas urbanas funcionam como barreiras invisíveis, provocando diagnósticos tardios, faltas a consultas agendadas e a interrupção no acompanhamento de doenças crônicas.
Para quem vive na pele essa rotina, a teoria acadêmica é uma realidade diária dolorosa. Na tarde de uma sexta-feira, 12 de julho, a auxiliar de serviços gerais Núbia Sales Veras, de 52 anos, aguardava seu transporte na Rodoviária do Plano Piloto, no centro da capital federal. Moradora de Cidade Ocidental, município goiano a cerca de 50 quilômetros de seu emprego no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, Núbia convive com as dores da fibromialgia.
A jornada diária é dupla: enfrentar a síndrome crônica e a incerteza das paradas de ônibus. A trabalhadora relata que o custo diário de R$ 18 com transporte compromete o orçamento familiar, impedindo investimentos na educação das filhas e no lazer. O prejuízo mais grave, contudo, é na própria saúde. Núbia conta que já perdeu consultas agendadas no Hospital Sarah, referência em reabilitação motora, devido aos atrasos constantes das linhas e ao peso do preço da passagem no bolso.
Barreiras invisíveis e o peso da desigualdade racial
O estudo, estruturado sob o título “Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços”, aponta que o sofrimento vai além da saúde física. O tempo excessivo gasto nos deslocamentos diários atua como um fator de estresse crônico, cansaço extremo e exaustão, alimentando quadros de ansiedade e depressão.
As barreiras geográficas cobram um preço ainda mais alto da população negra, amplamente representada nas faixas de menor renda e altamente dependente do transporte coletivo. De acordo com o relatório, a segregação espacial se reflete em dados brutais: o risco de morte materna entre mulheres negras é o dobro do registrado entre mulheres brancas, um abismo social diretamente alimentado pelas dificuldades de deslocamento urbano.
Mesmo o direito à gratuidade não resolve o problema por completo. Helena Simão, aposentada de 72 anos que sofre com osteoporose, não paga mais passagem pelo direito da idade. No entanto, ela também relata ter perdido consultas médicas por causa da baixa frequência de coletivos para Samambaia, região administrativa do Distrito Federal onde reside, a 30 quilômetros do centro.
A saída pela tarifa zero universal
Para os pesquisadores, a eliminação definitiva da tarifa de transporte público, com a adoção do passe livre universal, tem o potencial de funcionar como uma política social revolucionária, comparável à criação do Sistema Único de Saúde (SUS). O pesquisador Paíque Duques Santarém destaca que a medida transformaria de forma profunda a dinâmica das cidades e a relação da sociedade com os direitos básicos.
Além do impacto social direto, a gratuidade se mostra economicamente viável. Cálculos anteriores do mesmo grupo de pesquisadores indicam que a implementação da tarifa zero nas 27 capitais do Brasil injetaria cerca de R$ 60,3 bilhões por ano na economia do país, gerando um efeito de distribuição de renda comparável ao do programa Bolsa Família.






































































































