São Paulo (SP) – O Pajubá carrega quase cem anos de marcas, silêncios e estratégias. Mais do que um dialeto, ele se consolidou como uma rede de proteção, essencial para que corpos trans e travestis — com protagonismo de mulheres negras — pudessem articular suas existências em ambientes hostis. Agora, o Museu da Diversidade Sexual traz o tema para o centro do debate nesta quinta-feira (25), às 19h, em um encontro aberto ao público que discute o reconhecimento formal dessa forma de comunicação como patrimônio linguístico.
A origem do código remete à necessidade urgente de esconder conversas durante a repressão da Ditadura Militar. Sua estrutura é um mosaico cultural: funde raízes de línguas africanas, como o iorubá e o banto, com elementos que cruzaram fronteiras por meio do francês, italiano, espanhol e inglês. O próprio nome Pajubá, derivado do iorubá, sintetiza sua natureza original ao significar segredo, novidade ou conversa.
Apesar da potência política, o caminho até o reconhecimento atual foi marcado pelo estigma. A escritora e curadora da Masterclass Pajubá, Amara Moira, observa que a própria comunidade chegou a rejeitar o dialeto em momentos passados. A associação direta com travestis que exerciam o trabalho sexual fez com que o termo fosse lido por muitos como uma linguagem de marginais, gerando um distanciamento deliberado.
O cenário mudou conforme os embates sociais avançaram. Com a redução relativa de algumas barreiras discriminatórias, o Pajubá caiu em desuso, especialmente entre as novas gerações, que viram o léxico ser esquecido gradualmente. O debate no Centro de Empreendedorismo e Pesquisa do museu, na Rua do Arouche, 24, busca justamente interromper esse apagamento.
Mais que um vocabulário, uma crônica
Para Amara Moira, o esforço de memória vai além da preservação de palavras. Ela defende que cada termo carrega o horizonte de expectativas, as urgências de sobrevivência e a capacidade inventiva de uma comunidade que precisou narrar a si mesma nas entrelinhas. Ao revisitá-lo, documenta-se a própria transformação das épocas e a evolução das identidades.
O renascimento desse repertório já é visível. A aposta atual não é a manutenção do segredo, mas a ocupação de novos espaços. Através do teatro, da literatura, da música e da sétima arte, o Pajubá deixa o gueto para se tornar ferramenta de expressão artística e registro histórico. A provocação do evento desta noite é justamente entender como essas camadas de resistência podem sobreviver ao tempo, deixando de ser algo que precisa ser ocultado para virar algo que merece ser contado.







































































































