Ibatiba (ES) – O abismo entre o que os brasileiros defendem e como efetivamente agem dentro de casa continua profundo. Se no discurso nove em cada dez entrevistados apontam a conversa como a ferramenta ideal para a educação, na prática os números contam outra história. Uma investigação realizada pela Quaest para o Instituto Infinis revela que 62% dos brasileiros já gritaram com uma criança, enquanto 49% admitem ter aplicado tapas e 27% recorreram a objetos para impor disciplina.
Os números de 2026 refletem uma realidade preocupante: apenas entre janeiro e abril, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania contabilizou 115.814 denúncias de violações contra menores de 18 anos. Para contextualizar, o país possui uma população infantojuvenil de aproximadamente 55 milhões de pessoas.
Embora cenas de brutalidade explícita — como o episódio de um pai chutando a filha de três anos em via pública, em Francisco Beltrão, no Paraná — choquem pela crueldade, elas acabam mascarando a recorrência de agressões cotidianas, tidas por muitos como parte do processo educativo. A segunda edição do estudo Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes indica que, embora haja uma leve queda no uso de objetos nas agressões em comparação a 2023, o padrão de comportamento agressivo se mantém arraigado.
A passividade de quem testemunha tais atos também preocupa especialistas. Dois terços dos entrevistados afirmaram que preferem não interferir caso presenciem episódios de violência. Entre esses, 50% justificam a omissão por entenderem que a criação de uma criança é uma questão estritamente particular. O medo de represálias é outra barreira real; no caso ocorrido no Paraná, quem ousou questionar a conduta do pai foi ameaçado diretamente pelo agressor.
A percepção social sobre o trabalho infantil traz mais nuances ao levantamento. Apesar de 93% dos brasileiros concordarem que a educação formal deve ser a prioridade absoluta, 61% veem como aceitável que crianças trabalhem. O apoio sobe para 88% quando se trata de adolescentes que desejam exercer alguma atividade laboral, caindo para 71% quando a determinação parte dos pais.
A falta de conhecimento sobre o amparo legal é um dado que chama atenção. Mesmo após discussões públicas sobre temas como o ECA Digital, 71% dos ouvidos pela pesquisa não souberam identificar nenhuma norma de proteção à infância. A íntegra do estudo, que entrevistou 2.202 pessoas em todo o país entre maio e junho de 2026, será debatida em setembro durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância.
Márcia Kalvon, diretora executiva do Instituto Infinis, destaca que mapear essas condutas é o único caminho para interromper um ciclo de violência que, historicamente, atravessa gerações e tende a ser reproduzido por quem foi vítima de agressões no passado.






























































































