Sinop (MT) – Aos 94 anos, o corpo que tantas vezes serviu de escudo político na defesa da Amazônia agora enfrenta uma batalha silenciosa em um leito de hospital no norte de Mato Grosso. O cacique Raoni Metuktire segue internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop, após dar entrada na tarde de domingo (14). O boletim médico divulgado na tarde desta terça-feira (16) aponta uma sutil evolução em seu quadro clínico, embora ainda não haja qualquer previsão de alta para o líder caiapó.
Os rins de Raoni começaram a responder de forma tímida aos tratamentos, com melhora na produção de urina, embora a função renal ainda demande monitoramento constante e não tenha retornado à normalidade. Ele respira por conta própria, sem a necessidade de aparelhos, e mantém-se lúcido e orientado. No entanto, o cacique está em jejum absoluto devido a um quadro de suboclusão gástrica — uma obstrução parcial que impede a passagem de alimentos sólidos e líquidos pelo trato digestivo. Para garantir seu aporte calórico, a equipe médica iniciará a alimentação diretamente pela veia, por meio de nutrição parenteral. Uma endoscopia digestiva alta está programada, mas o procedimento só ocorrerá quando as funções vitais estiverem plenamente estabilizadas. Por ora, os médicos descartaram qualquer necessidade de intervenção cirúrgica.
Resistência física sob constante monitoramento
A fragilidade decorrente da idade avançada e a presença de outras doenças preexistentes exigem cautela extrema da equipe médica. Trata-se de um paciente de alta complexidade. O diretor-técnico da instituição de saúde, Douglas Yanai, pondera que, apesar da conhecida força física e espiritual do líder indígena, o histórico clínico recente pesa na recuperação. Esta já é a terceira internação de Raoni apenas em 2024. As recaídas, segundo o médico, fazem parte de um ciclo comum a pacientes com mais de nove décadas de vida que carregam outras comorbidades. O foco atual é estabilizar o organismo do cacique para que ele possa retomar sua rotina e suas atividades de liderança na aldeia.
No quarto de terapia intensiva, a rotina de isolamento é quebrada apenas pela presença constante de um familiar próximo. As visitas de terceiros foram severamente restritas para poupar a energia do cacique e evitar riscos de infecções. Yanai relata que Raoni mantém-se ativo mentalmente, conversando com os médicos e enfermeiros, o que traz otimismo para os profissionais envolvidos em seu tratamento. Essa capacidade de manter o diálogo e a consciência clara em meio a um tratamento intensivo é vista como um indicativo de sua resiliência histórica.
Uma vida dedicada à floresta
A preocupação com o estado de saúde de Raoni ultrapassa as fronteiras do Parque do Xingu. Reconhecido internacionalmente como a voz mais expressiva da causa indígena e da preservação ambiental no Brasil, o cacique dedicou as últimas décadas a alertar governos e instituições globais sobre a destruição da floresta amazônica e os riscos que o desmatamento impõe à sobrevivência física e cultural de seu povo. A nova internação começou após ele se sentir mal em sua residência no último fim de semana, mobilizando uma complexa logística para transferi-lo até o centro médico em Sinop.








































































































