Ouro Preto (MG) – Aos 22 anos, a cineasta Luiza Lindner conquistou o Troféu Vila Rica na mostra competitiva Arquivos em Questão com seu primeiro longa-metragem, “Irritante Prodígio”, no encerramento da 21ª CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto), nesta terça-feira (30), em Minas Gerais. A produção recorre a memórias pessoais para costurar uma narrativa sobre identidade e sobrevivência, transformando o corpo da própria diretora em um arquivo vivo.
No documentário, Luiza revisita um passado marcado por internações hospitalares e psiquiátricas na infância. Ela reconstrói esse percurso íntimo por meio de performances, registros de arquivo e um forte tom autobiográfico. O júri, composto pela documentarista Anita Leandro, pela pesquisadora Gabriela Lima Gomes e pelo professor João Luiz Vieira, justificou a escolha apontando que a obra se destaca justamente pelo encaixe preciso entre forma e conteúdo, valorizado pelo uso do corpo como suporte de memória.
Ao receber a premiação, a jovem diretora reforçou a importância do cinema como ferramenta de afirmação pessoal. “Esse filme representa a força da expressão artística e da nossa existência. Estou começando minha carreira em cinema e espero que esse prêmio ajude o filme a existir ainda mais”, declarou.
Preservação e os rumos do acervo nacional
O festival, realizado de 25 a 30 de junho, foi além da exibição de filmes e promoveu debates sobre os rumos da preservação audiovisual no Brasil diante da avalanche de novas mídias digitais. O principal resultado desses encontros foi a divulgação da Carta de Ouro Preto, documento formulado anualmente pelos integrantes do Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros.
O manifesto deste ano coloca a guarda de acervos como uma questão de soberania nacional. Entre as principais demandas estão a criação de uma infraestrutura brasileira para o armazenamento de dados digitais, a expansão de programas de formação técnica e o estabelecimento de limites éticos para o uso de inteligência artificial na restauração de imagens. O documento também cobra a regulamentação do depósito legal audiovisual e a abertura de concursos públicos para oxigenar as instituições de preservação.
Como sinal de avanço prático, o texto celebra a criação do curso de preservador audiovisual promovido pelo Centro Técnico Audiovisual (CTAv) em parceria com o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), além da aprovação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Preservação e Restauração do Audiovisual (INCT PreRes). Mas há urgências imediatas: a Carta de Ouro Preto inclui uma moção em defesa da salvaguarda do acervo do projeto Vídeo nas Aldeias, considerado fundamental para a memória dos povos indígenas.
Raquel Hallak, coordenadora-geral da CineOP, destacou que o evento consolida sua função política. “Preservar o cinema é preservar a nossa capacidade de lembrar, compreender quem somos e imaginar o futuro”, concluiu, ressaltando o papel da mostra como o único festival brasileiro focado exclusivamente na salvaguarda da memória cinematográfica.



































































































