Rio de Janeiro (RJ) – O Brasil reencontra um dos capítulos mais marcantes de sua cinematografia nesta quinta-feira (16). Cinquenta anos depois de conquistar o país, o longa Xica da Silva, assinado por Cacá Diegues, volta ao circuito comercial exibido em uma criteriosa restauração digital em 4K. A iniciativa integra o projeto Sessão Vitrine Petrobras, que busca devolver aos projetores títulos fundamentais da cultura nacional.
A trama, que narra a trajetória de uma mulher negra escravizada que ascendeu socialmente no Distrito Diamantino do século 18, não apenas consagrou Zezé Motta como um dos nomes centrais do audiovisual brasileiro, mas também atraiu um público de 3,1 milhões de espectadores na década de 1970. A nova versão técnica visa garantir que as futuras gerações tenham acesso à obra com a fidelidade estética pretendida por seus realizadores originais.
Débora Butruce, coordenadora do processo de restauração, explica que o trabalho não buscou uma reinterpretação da história, mas sim a reversão dos danos causados pela passagem do tempo e pela preservação precária. Para ela, o resgate serve para combater a imagem de fragilidade técnica que muitas vezes é colada, injustamente, à produção cinematográfica brasileira de décadas passadas. “É trazer de volta toda a potencialidade que já existia ali”, define.
A pré-estreia, ocorrida na segunda-feira (14) na Sala José Wilker, no Rio de Janeiro, foi marcada por um tom de nostalgia e celebração à memória de Cacá Diegues, cineasta falecido no ano passado. O evento reuniu nomes como a própria Zezé Motta, Renata Magalhães — viúva do diretor — e representantes da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. A agremiação possui um vínculo histórico profundo com o projeto: foi justamente um desfile da escola, em 1963, que inspirou Diegues a conceber o longa. Em uma coincidência notável, o Salgueiro anunciou que voltará a homenagear a personagem no Carnaval de 2027.
Visivelmente emocionada, Zezé Motta foi ovacionada pelos presentes. A atriz demonstrou gratidão ao notar o interesse contínuo do público pela produção cinco décadas depois. Já Renata Magalhães, produtora e viúva do cineasta, recordou o impacto que a obra teve em sua própria trajetória, desde os 15 anos, quando a viu pela primeira vez. Ela ressaltou que Diegues costumava classificar o longa como o seu “filme escola de samba”, um trabalho que, segundo ela, permanece atual por expor as ambiguidades e a complexidade social do Brasil.

























































































