Colatina (ES) – Aos 19 anos, Sofia Kano entende que o sobrenome que carrega nas costas é muito mais do que uma identificação familiar. É um símbolo de uma era dourada do tênis de mesa nacional. Natural de São José dos Campos, a atleta iniciou sua caminhada nas mesas ainda aos 5 anos de idade, impulsionada pela observação curiosa que tinha do esporte na infância. O que começou como uma atividade ao lado do irmão mais velho, em escolinhas locais, rapidamente se transformou no eixo central de sua vida.
Essa dedicação ganha contornos de missão pessoal pelo peso do legado de Claudio Kano, primo de segundo grau e um dos maiores nomes que o Brasil já viu na modalidade. Entre as décadas de 1980 e 1990, Claudio não apenas dominou o cenário, com 12 medalhas em Jogos Pan-Americanos — sete delas de ouro —, mas também elevou o patamar técnico brasileiro, alcançando o sexto lugar na Copa do Mundo em Macau, em 1987, e em Nairóbi, em 1989. O atleta faleceu tragicamente em 1º de julho de 1996, vítima de um acidente de moto, apenas um dia antes de embarcar para os Jogos Olímpicos de Atlanta. Sofia guarda hoje um amuleto que pertenceu ao ídolo, um presente entregue pela mãe de Claudio, que segue acompanhando a trajetória da jovem.
A transição de Sofia para o alto rendimento consolidou-se em 2018, quando passou a treinar em Jacareí. O sucesso na base foi rápido: três vezes eleita a melhor atleta da categoria, ela conquistou a seletiva nacional Sub-15 em 2021. Em 2023, buscando um ambiente mais competitivo, mudou-se para o Rio Grande do Sul. Na Sogipa, ela passou a trabalhar com o técnico Jorge Fanck, conhecido por sua vivência em seleções adultas.
A rotina de Sofia é regrada pela disciplina. Ela concilia a graduação em educação física, cursada de forma online, com uma jornada técnica exaustiva. O cronograma começa pela manhã com uma hora de treino físico, mas o foco real acontece à tarde, na mesa, onde passa de quatro a cinco horas e meia por dia, muitas vezes estendendo o trabalho até a noite. Para o técnico Jorge Fanck, essa mudança de ares foi um ponto de virada fundamental. Segundo ele, o estilo de jogo de Sofia foi praticamente reconstruído desde que ela chegou ao clube gaúcho, o que a levou ao posto de atual campeã brasileira Sub-21.
Mesmo reconhecendo a complexidade do funil de classificação olímpica, que seleciona apenas quatro nomes por ciclo, Sofia mantém o olhar focado no longo prazo. Após passar uma temporada treinando na França e competindo na Eslovênia, a atleta se sente cada vez mais preparada para figurar na seleção adulta brasileira. O objetivo, contudo, transcende as medalhas: ela deseja que sua trajetória sirva como estímulo para que mais pessoas pratiquem o tênis de mesa, garantindo que o esporte continue a ocupar espaços de relevância no país.
































































































