Brasília (DF) – A comédia stand-up ganha um contorno diferente quando o alvo do riso deixa de ser o oprimido. No palco do Teatro do Museu Nacional da República, em Brasília, a plateia que lotou o espaço durante o Festival Latinidades experimentou essa transição de perto. A comediante baiana Magali Moraes, de 41 anos, abriu sua apresentação brincando com a suposta preguiça associada ao seu povo natal. Bastou um silêncio estratégico e uma gargalhada para desarmar o público e expor o peso dos clichês que pretendia combater.
Rir das próprias batalhas
Magali é uma das principais vozes do projeto Humor Negro, iniciativa que começou em Salvador e ganhou as telas de TV. Para ela, o objetivo central de um espetáculo continua sendo o riso, mas a potência da arte reside na sua capacidade de gerar atrito social. Rir da própria realidade — que inevitavelmente atravessa o racismo, o machismo e a homofobia — torna-se uma ferramenta de sobrevivência. Como mulher lésbica, a atriz busca falar diretamente com um público feminino que raramente se via representado nos palcos tradicionais da comédia, historicamente dominados por homens brancos.
A ressignificação de um termo
A engrenagem por trás desse movimento foi desenhada pela produtora baiana Val Benvindo, de 36 anos. Incomodada com o uso pejorativo e racista da expressão “humor negro”, historicamente associada a piadas cruéis ou de mau gosto, Val decidiu tomar o termo para si. Para a produtora, o verdadeiro humor negro é aquele produzido por mentes pretas, servindo como plataforma para valorizar e fomentar a própria cultura, sem que essas pessoas precisem ser ridicularizadas para divertir terceiros.
Dos palcos para as telas
A trajetória do projeto começou em 2019 no tradicional Teatro Jorge Amado, na capital baiana. Durante a pandemia de covid-19, o formato precisou se reinventar e acabou despertando o interesse dos canais Multishow e Globoplay. O especial de televisão foi gravado no Teatro Vila Velha, outro espaço histórico da cultura soteropolitana. Ao transpor as dores cotidianas para a ficção e para o stand-up, o coletivo de humoristas prova que é possível transformar vivências difíceis em narrativas acolhedoras e provocativas.




































































































