Luís Gomes (RN) – O sertão potiguar iniciou a reconfiguração de seu mapa hídrico nesta quinta-feira, 2, com a inauguração do Túnel Major Sales, na cidade de Luís Gomes. A colossal estrutura de engenharia, projetada para consolidar a descida das águas do Rio São Francisco em direção ao solo do Rio Grande do Norte, foi oficialmente entregue pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se do trecho de maior complexidade técnica de todo o Ramal do Apodi, planejado especificamente para transformar a realidade das populações locais que convivem historicamente com a estiagem extrema.
Espera pela água e detalhes da estrutura
O evento oficial de inauguração ocorreu antes mesmo de o primeiro fluxo de água preencher por completo a galeria subterrânea. Lula explicou ao público que uma falha de cálculo da empresa responsável pela execução física do projeto atrasou o trajeto do fluxo, impedindo que a água jorrasse exatamente no momento da solenidade. A expectativa técnica é de que o canal esteja totalmente abastecido ainda na noite desta quinta-feira. Diante do imprevisto técnico, o presidente dirigiu-se diretamente ao prefeito de Luís Gomes, Carlos Augusto de Penha, com uma recomendação clara: orientou o gestor municipal a reunir a população local para celebrar a chegada da torrente assim que ela despontar no canal. “Gostaria que você e todos os prefeitos da região estivessem na frente deste canal e lavassem o rosto, os pés. Essa água é uma bênção para o povo”, declarou.
A engenharia do empreendimento impressiona pelas dimensões. Com 6,5 quilômetros de extensão linear, o canal subterrâneo possui capacidade para escoar um volume de até 20 metros cúbicos de água por segundo. O túnel compõe o Ramal do Apodi, uma imensa estrutura que se estende por 115,5 quilômetros e que beneficiará cerca de 750 mil habitantes distribuídos por 54 municípios nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará. Horas antes do início do ato público, o presidente realizou uma vistoria de helicóptero para acompanhar o avanço físico das obras ao longo do ramal.
Dívida histórica e relatos do sertão
Durante seu pronunciamento, Lula destacou que a transposição do São Francisco representa o resgate de um compromisso histórico com as gerações de retirantes que foram forçadas a migrar em direção ao Sudeste para escapar da fome. Ele lembrou que os primeiros debates sobre o desvio das águas começaram ainda no período do Império, em 1846, mas as obras efetivas só começaram a sair do papel em 2005, durante o seu primeiro mandato presidencial. “De 1846 a 2005, nunca deixaram fazer essa obra”, assinalou, ponderando que, se a seca em si é um fenômeno natural inevitável, a fome gerada por ela decorre da falta de compromisso e de caráter político de antigas gestões.
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, reforçou o peso simbólico do projeto ao compartilhar suas próprias vivências de infância no semiárido, época em que precisava despertar na madrugada para buscar água potável em cacimbas distantes. Para a governadora, a conclusão do túnel funciona como um divisor de águas definitivo para a região. “Quando olhamos para essa estrutura, vemos a simbologia de uma travessia, como se estivéssemos deixando para trás um passado marcado por escassez e sofrimento”, afirmou.
Fortalecimento do transporte escolar rural
Além da agenda focada em segurança hídrica, a visita presidencial ao território potiguar também contemplou ações voltadas para a educação pública. Foram entregues 20 novos ônibus escolares integrados ao programa Caminho da Escola. A nova frota possui capacidade de transporte estimada em aproximadamente 1.030 estudantes por viagem, beneficiando prioritariamente os jovens matriculados em redes de ensino situadas nas áreas rurais de difícil acesso do estado.
































































































