Baixo Guandu (ES) – A oceanógrafa Fernanda Possatto reúne, em uma bancada, amostras de lixo plástico recolhido em 14 praias do litoral do Paraná. Ela lembra que esses resíduos são os mais fáceis de enxergar. No mar, porém, existe um tipo de contaminação que quase não aparece — e é justamente nela que a pesquisa se concentra: os microplásticos.
O levantamento conduzido pela pesquisadora indica que 93,6% de uma amostra de peixes coletados em feiras e mercados do litoral paranaense têm microplásticos no trato digestivo. Os fragmentos, menores que 5 milímetros (mm), são vestígios de produtos feitos com plástico que, segundo o estudo, foram consumidos pelos animais examinados.
Na sede da Associação Mar Brasil, uma organização sem fins lucrativos, Fernanda comentou a interpretação dos resultados. Para ela, não se trata ainda de afirmar risco alimentar direto: “Isso não significa que os peixes não podem ser ingeridos, porque a gente não está falando de saúde alimentar ainda, mas isso já é um indício de que a gente precisa estudar melhor esses impactos”.
O que o estudo tenta entender
A oceanógrafa também faz um recorte sobre a diferença entre ingerir e absorver. “A gente não não está falando ainda de risco para saúde humana porque hoje a gente não come o trato, não come o estômago, a gente come o músculo”, afirmou. Mesmo assim, ela levanta uma questão que orienta os próximos passos: “Quanto dos componentes tóxicos que existem desse microplástico presente no estômago pode ser absorvido pelos tecidos musculares das espécies de peixes?”.
O trabalho se apoia em referências já discutidas em outras pesquisas, que apontam que fragmentos podem liberar substâncias tóxicas. Esses efeitos, segundo os estudos citados, estariam ligados à alteração da fecundidade e ao surgimento de tumores. “Tudo isso ainda está sendo analisado e estudado”, resumiu Possatto.
Para entender como os microplásticos chegam aos organismos, o estudo explica que eles são fragmentos do material maior — o plástico. Com o tempo e a irradiação solar, o material se quebra em micropartículas e passa a circular pela água, pelo solo e pelo ar, chegando à cadeia alimentar. As partículas podem surgir de lixo no mar, como embalagens, garrafas, pneus, tecidos e revestimentos com tinta — e as tintas, por sua vez, aparecem como fonte de elementos químicos presentes nesses fragmentos.
Programa Rebimar e novas frentes
A sede da Mar Brasil fica em Pontal do Paraná, em uma praia de frente para a turística Ilha do Mel. A organização desenvolve o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), iniciativa patrocinada pela Petrobras. No entorno, há cenários distintos, como a Ilha da Cotinga, terra indígena, áreas contínuas de manguezais e o Porto de Paranaguá, que concentra a movimentação de frotas de navios.
Além dos peixes, os estudos do Rebimar identificaram microplásticos em aves com contato com o mar. Foram analisadas gaivotas e corujas-buraqueiras, a partir de material regurgitado (expelido do estômago ou do papo) por aves vivas. Em 69% delas, os fragmentos apareceram. “Se você nota que a cada dez indivíduos, sete têm microplástico, é muito alto”, pontuou a oceanógrafa.
Fernanda também relaciona a presença do problema a diferentes paisagens. Para ela, microplásticos aparecem tanto em áreas com maior presença humana — como nos arredores do Porto de Paranaguá — quanto em regiões preservadas. O resultado, segundo a pesquisadora, indica que “fronteira geográfica não existe para a questão do plástico”, já que os fragmentos são transportados por correntes, ventos e marés.
Ela acrescenta que a pesquisa pode ajudar a orientar decisões públicas. “A gente não tem hoje um índice que nos diz se 1 microplástico por metro cúbico de água é aceitável”, exemplificou. “Estamos em um processo de construção desses índices”. Para a oceanógrafa, a mitigação passa por ações da indústria e por consumo consciente: “Não tem uma solução única. A gente tem que pensar em vários leques de atuação, desde a sensibilização com a educação ambiental até a fonte mesmo que é a produção do plástico”.
Lixo no trato digestivo de tartarugas
Outra frente do Rebimar acompanha tartarugas-verdes, uma das sete espécies desses animais marinhos no mundo e uma das cinco registradas no Brasil. Pelo menos três vezes ao ano, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) capturam e analisam a saúde das tartarugas. Desde 2014, foram feitas 435 capturas, com 313 indivíduos, o que significa que cerca de 120 foram observadas mais de uma vez.
A bióloga Camila Domit, coordenadora do Laboratório de Ecologia e Conservação da UFPR, relata que 80% das tartarugas encontradas mortas no litoral paranaense tinham lixo no trato digestivo. “É assustador”, disse. Ela explica que, conforme a quantidade, o resíduo pode levar o animal à morte.
Camila também aponta outra variável: o tipo de resíduo. “A gente encontra uma série de plásticos rígidos que causam rompimento, lesões mais graves no trato digestivo desses animais”, descreveu. Os estudos da UFPR e do Rebimar indicam que, nas praias monitoradas, cerca de mil tartarugas são encontradas mortas anualmente. De cada dez, sete são vítimas de interação com a pesca.
O projeto usa tecnologias como rastreamento por satélite e acústico para acompanhar trajetos e comportamentos. Segundo Camila Domit, as evidências do Rebimar subsidiam decisões para favorecer a preservação. Ela lembra ainda que, com base no que as pesquisas produziram, a Ilha das Cobras, na Baía do Paranaguá, foi transformada em parque estadual para conservação da espécie.
Continuidade do programa
O Rebimar integra o Programa Socioambiental da Petrobras desde 2009. O projeto recebe aporte de R$ 6 milhões para um período de quatro anos, com possibilidade de habilitação para novo ciclo de investimento. A gerente setorial de integração de projetos ambientais da estatal, Michele Cardoso, destacou o caráter de continuidade do apoio.
“É importante ter nessa carteira de projetos parcerias de longo prazo que dão essa robustez e solidificam os compromissos do programa”, afirmou.
*Repórter e fotógrafo viajaram a convite da Petrobras.






























































































