Vitória (ES) – O fundo do mar permanece como uma das últimas fronteiras desconhecidas da humanidade, com apenas um quarto de sua extensão mapeada. Para o pesquisador Ronaldo Christofoletti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essa lacuna de conhecimento é o principal obstáculo para o estabelecimento de modelos de exploração que sejam, de fato, sustentáveis.
Christofoletti integrou o grupo de 580 cientistas globais responsáveis pela elaboração da Terceira Avaliação Global dos Oceanos (WOA-3), documento apresentado ao mundo em 8 de junho. O relatório lança luz sobre uma realidade alarmante: o nível das águas salgadas sobe a uma velocidade 50% maior que em períodos anteriores, acompanhado por níveis recordes de derretimento das calotas polares, aquecimento das temperaturas marítimas e um agravamento visível da poluição.
Apesar da urgência climática, o oceano profundo enfrenta uma crônica falta de interesse público. Enquanto a exploração espacial domina manchetes e o imaginário coletivo — como a recente missão que explorou novas faces da Lua —, o abismo marinho, situado a milhares de metros de profundidade, recebe uma fração da atenção dedicada aos astros. É um cenário que o próprio Christofoletti observa de perto, enquanto realiza pesquisas em embarcações no meio do Atlântico, operando em áreas com mais de 4 mil metros de lâmina d’água.
Potencial econômico e biotecnológico
A exploração sustentável das profundezas não é apenas uma questão de preservação, mas de inovação. Segundo o pesquisador, o fundo oceânico é uma fonte inesgotável de minerais críticos para a indústria tecnológica e de compostos biológicos promissores para a medicina. A chave para acessar esses bens, no entanto, reside no planejamento espacial marinho. Sem um desenho estratégico desde o início, o risco é replicar no oceano os danos irreversíveis que o modelo extrativista causou aos ecossistemas terrestres e florestais.
Este debate ganha contornos especiais para o bloco de países de língua portuguesa. Todas as nações lusófonas possuem, em sua geografia, uma relação intrínseca com o mar. O caso de Cabo Verde, um arquipélago onde a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) é a face predominante do território, exemplifica a dependência estratégica. Portugal, por sua vez, detém proporcionalmente a maior área de ZEE em toda a Europa. Com a vasta costa brasileira somando-se a geografias como as de Angola e Moçambique, a necessidade de organizar o uso dessas águas torna-se uma prioridade soberana.
Para o cientista, integrar a ciência à gestão territorial oceânica não é uma opção, mas o único caminho viável. O planejamento espacial, que começa a ganhar tração no Brasil e em outros países do grupo, representa a tentativa de equilibrar a ambição econômica com a manutenção da integridade biológica que ainda sustenta a vida no planeta.































































































