São Paulo (SP) – As paisagens do Brasil profundo perderam o seu principal cronista. Na manhã desta terça-feira (7), o dramaturgo Benedito Ruy Barbosa faleceu aos 95 anos na capital paulista. Ele estava internado no Hospital do Coração (HCor), instituição onde já havia passado alguns dias sob cuidados médicos em janeiro deste ano. A causa do óbito foi uma insuficiência renal crônica, que se agravou nos últimos tempos.
A trajetória de Benedito confunde-se com a própria evolução da televisão no país. Natural de Gália, no interior paulista, onde nasceu em 17 de abril de 1931, ele trouxe a vivência do campo para as telas de milhões de lares brasileiros. Antes de se consagrar na escrita ficcional, construiu uma carreira diversificada na cidade de São Paulo: atuou no comércio, trabalhou em agências bancárias e ingressou no jornalismo em 1954, inicialmente como revisor no jornal O Estado de S. Paulo. Sua assinatura também passou pelas redações do Última Hora e da Gazeta Esportiva.
A transição para as telas
A literatura foi a ponte definitiva para o audiovisual. Em 1959, publicou seu romance de estreia, “Fogo Frio”, obra que abriu as portas do mercado televisivo. Sete anos mais tarde, em 1966, colocava no ar sua primeira novela, “Somos Todos Irmãos”, exibida pela extinta TV Tupi. A partir dali, seu nome circulou pela TV Excelsior e pela Record antes de iniciar um longo e vitorioso ciclo na TV Globo.
Na emissora carioca, estreou em 1971 com “Meu Pedacinho de Chão”, que inaugurou a faixa de folhetins das seis da tarde. Em seguida, consolidou seu estilo ruralista e afetivo com “O Feijão e o Sonho”, de 1976, e a primeira versão de “Cabocla”, em 1979. Benedito também teve uma passagem marcante pela TV Bandeirantes em 1981, onde escreveu “Os Imigrantes”, um épico que explorava a saga dos estrangeiros que ajudaram a erguer o país.
O fenômeno da Rede Manchete e o retorno consagrado
O ápice da ousadia narrativa veio em 1990, fora da líder de audiência. Pela extinta Rede Manchete, o autor colocou no ar “Pantanal”. A produção, ambientada nas planícies inundadas do Centro-Oeste, alcançou índices históricos de audiência e abalou a hegemonia da TV Globo. O sucesso estrondoso provocou o retorno do novelista ao canal carioca, de onde não sairia mais.
De volta à antiga casa, emendou clássicos que paravam o país: “O Rei do Gado” (1996), “Terra Nostra” (1999) e “Esperança” (2002). O escritor também revisitou seu próprio passado ao assinar os remakes de sucesso de “Cabocla”, em 2004, e “Sinhá Moça”, em 2006. Sua última incursão original na faixa nobre foi a poética e divisiva “Velho Chico”, exibida em 2016.
Além das novelas, Benedito Ruy Barbosa deixou marcas na literatura infantil ao roteirizar episódios do “Sítio do Picapau Amarelo” a partir de 1977. No cinema, assinou os roteiros de longas como “O Dia que o Santo Pecou” (1975), “Mágoa de Boiadeiro” (1979) e “O Filho Adotivo” (1984). Com sua partida, encerra-se um dos capítulos mais ricos da ficção televisiva nacional.






























































































