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Ultimas Noticias!

O desafio de desaprender: Silvio Meira analisa o impacto da IA no trabalho e na sociedade

Por Redação / Diário da Nação
19 de maio de 2026
em Ultimas Noticias!
4 mins read
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O desafio de desaprender: Silvio Meira analisa o impacto da IA no trabalho e na sociedade

📷 CIn-UFPE/Divulgação

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Recife (PE) – O movimento cultural manguebeat, que nos anos 1990 fundiu ritmos regionais de Pernambuco com a modernidade tecnológica, serviu como um catalisador improvável para o desenvolvimento de polos de inovação no Brasil. Naquele cenário de efervescência criativa, um grupo de professores do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco buscou formas de reter talentos locais, plantando a semente do que viria a se tornar o Centro de Estudos Avançados do Recife, o CESAR. Hoje, a instituição é um pilar do Porto Digital, ecossistema que reúne quase 500 empresas de tecnologia na capital pernambucana.

Três décadas após sua fundação, o engenheiro e pesquisador Silvio Meira retorna ao conselho da organização com uma visão pragmática sobre o momento atual. Para ele, a ascensão da inteligência artificial representa uma ruptura histórica comparável apenas à invenção dos tipos móveis por Gutenberg, no século 15. O desafio, agora, exige um retorno às raízes e, paradoxalmente, uma capacidade de desaprender métodos que se tornaram obsoletos diante da velocidade da automação.

A natureza da inteligência artificial

A inteligência artificial atua diretamente sobre as capacidades cognitivas e repetitivas dos seres humanos. Meira divide a inteligência humana em três pilares: a informacional, ligada à captura e processamento de dados para a tomada de decisão; a social, que envolve a articulação com outros para resolver conflitos; e a autônoma, referente ao poder individual de escolha. A IA, em sua essência, mimetiza a inteligência informacional.

Tudo o que é puramente cognitivo, embora exija formação técnica, mas que se repete em um padrão, pode ser executado pelas máquinas com maior eficiência e custo reduzido. O exemplo do clínico geral, que solicita exames de rotina e receita medicamentos baseando-se estritamente em protocolos, ilustra essa automação. Se o trabalho se resume a cruzar dados de exames com bulas de remédios, um sistema algorítmico supera o humano em escala e precisão.

O novo papel do profissional

Essa mudança altera drasticamente o cotidiano de áreas como a programação, onde a IA já escreve grande parte dos códigos necessários. O trabalho do especialista deixa de ser a escrita manual e passa a ser a curadoria: definir se o código é necessário, para quem se destina, validar sua funcionalidade e garantir a segurança. A máquina entrega a estrutura pronta, mas a responsabilidade pela verificação recai sobre o humano, visto que a IA é probabilística e pode cometer erros sofisticados.

No Porto Digital, essa transição já é uma realidade operacional. Nas empresas derivadas do CESAR, o uso de agentes inteligentes não é apenas uma sugestão, é uma exigência. O objetivo é eliminar o trabalho repetitivo, permitindo que a equipe foque em problemas mais complexos. Não se trata de substituir pessoas, mas de aumentar drasticamente a produtividade. Um projeto que levava seis meses com dez pessoas pode ser concluído em um mês por um time reduzido, gerando um ganho de eficiência de 15 vezes.

Regulação e o dilema das plataformas

A discussão sobre o futuro também passa pela governança das plataformas digitais. Meira critica a ideia de liberdade absoluta online, argumentando que a noção ocidental de que o indivíduo pode destruir reputações ou a própria democracia sem consequências é um equívoco. Ele cita o modelo chinês como exemplo de regulação focada na resolução de problemas, onde o dissenso é aceito apenas se servir para construir consensos, e não para a agressividade gratuita.

Essa postura levanta debates sobre censura, que o pesquisador contesta ao diferenciar o controle estatal do limite social. Para ele, a falta de regulação no Brasil é fruto de incompetência política. O país falhou em criar um espaço de diálogo que envolvesse o Executivo, o Legislativo e as próprias plataformas, permitindo que o ambiente digital se tornasse um faroeste, ainda que com proteções de dados superiores às de várias nações.

O futuro do trabalho

Ao olhar para as próximas eleições e para o avanço desenfreado da tecnologia, Meira alerta que o país enfrenta as consequências de ter ignorado a necessidade de estabelecer marcos regulatórios claros. O lobby das empresas e a leniência do poder público impediram avanços necessários. O mercado, por sua própria natureza competitiva, tende a rejeitar regulações, cabendo ao Estado, embora este tenha falhado em suas iniciativas, mediar essa relação.

Em última análise, a inteligência artificial não é inteligente, mas uma imitadora poderosa. O mercado de trabalho não vai desaparecer, mas será transformado. Quem insistir em métodos analógicos, como o carroceiro que ignorou a ascensão do automóvel no início do século 20, perderá competitividade. O segredo para a sobrevivência nessa nova era é a disposição para desaprender o que já não serve e abraçar a capacidade de articular soluções complexas que, sozinhas, as máquinas ainda não conseguem conceber.

Tags: analisaanosdesafiodesaprenderImpactoInovaçãointeligência artificialmanguebeatmovimento culturalsilvio meirasociedade recifetecnologiaTrabalho
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